Existem momentos que dividem a nossa história em duas partes: antes e depois.
O meu aconteceu no dia 24 de Junho de 2022, em um dos piores dias da minha vida.
Meu pai faleceu repentinamente de Covid.
Não houve aviso, preparação, nem tempo para assimilar.
Foi como se alguém tivesse arrancado o chão sob os meus pés.
Na época, eu vivia o que muitos chamariam de “sucesso”: carreira sólida, executivo na Volkswagen, rotina de viagens, projetos, metas.
Por fora tudo parecia perfeito.
Por dentro, eu estava em modo automático — vivendo, mas não sentindo.
A morte do meu pai escancarou algo que eu evitava encarar:
quantas vezes a gente adia a própria vida só porque está confortável demais no desconforto.
Vi meu pai postergar muitos sonhos… e perceber que alguns nunca seriam realizados foi um golpe que nunca mais esqueci.
Foi ali que a dúvida entrou pela primeira vez:
“O que estou fazendo da minha vida?”
Burnout, MBA e o Almoço que Mudou o Rumo
Depois da perda, tentei seguir em frente como se nada tivesse acontecido.
Continuei trabalhando 10, 12 horas por dia, iniciando um MBA Internacional que eu sempre quis fazer — mas a conta chegou.
Entre luto, cobrança, estudos e pressão, meu corpo desligou.
Aos 28 anos tive um burnout.
Eu estava presente no mundo, mas totalmente ausente de mim.
Comecei a pensar seriamente em pedir demissão, mas faltava coragem.
Até que um dia, almoçando com meu chefe, no meio de uma conversa sobre planos futuros, algo simplesmente estalou.
Do nada, as palavras saíram da minha boca:
“Maurício, eu não quero mais estar aqui.”
Sem discurso ensaiado.
Sem aviso.
Foi a primeira vez, em muito tempo, que eu fui brutalmente honesto comigo mesmo.
Ele entendeu, me apoiou — e naquele almoço eu virei a página de uma vida inteira.
A Trilha, o Pôr do Sol e a Primeira Faísca
Depois de sair do corporativo, viajei para organizar a cabeça e refletir sobre o próximo passo.
Em uma trilha perto do letreiro de Hollywood, aconteceu algo inesperado.
O sol estava se pondo, o céu estava em chamas, e no meio daquele cenário absurdo eu senti um impulso:
“Eu vou sair correndo.”
E saí.
Não era treino.
Não era meta.
Era instinto puro.
Foi ali, correndo no meio da natureza, que algo reacendeu dentro de mim — uma chama que eu achei que tinha morrido junto com meu pai.
Era tesão pela vida.
Era presença.
Era conexão.
Voltei dessa viagem decidido:
Eu precisava correr. Eu precisava da trilha. Eu precisava da natureza de volta.
O Dia em que Eu Desabei no Caminho do Itupava
Comecei a treinar de verdade.
E foi em um treino de 14 km no Caminho do Itupava — a trilha mais antiga do Paraná — que a minha vida mudou pela segunda vez.
Aquela região tem história.
Meu pai teve empresa ali.
Passei boa parte da infância naquela área.
Memórias por todos os lados.
E no meio da trilha, sem aviso, eu parei.
Simplesmente desmoronei.
Chorei.
Desabei.
Foi um colapso emocional que eu não planejei e que não consigo descrever completamente.
Mas pela primeira vez em muito tempo…
foi um colapso que trouxe clareza.
Eu não estava chorando só pelo luto.
Era pela vida que eu não estava vivendo.
Pela desconexão comigo mesmo.
Pelo vazio que eu carregava.
E ao mesmo tempo, senti que a natureza — ali, naquele silêncio — estava me devolvendo algo que eu tinha perdido.
Naquele momento, eu entendi:
“É isso. É aqui. É essa vida que eu quero viver.”
Quando o Propósito Finalmente Apareceu
Continuei treinando, estudando, me envolvendo com o esporte, conversando com atletas e gente do meio.
E comecei a compartilhar meu processo online — não pelo hype, mas por necessidade.
Eu lembrava como era difícil começar.
Como faltava informação clara.
Como o mundo do trail pode parecer distante, um sonho que só vemos pelas redes sociais.
E eu quis ser a ponte.
Quis ser o caminho.
Quis ser a companhia que eu queria ter tido lá atrás.
Hoje, meu propósito é simples e gigantesco ao mesmo tempo:
mostrar o caminho para quem quer se reconectar com o corpo, com a cabeça e com a natureza.
É ajudar pessoas a descobrirem no esporte aquilo que eu encontrei:
um escape, uma cura, uma identidade.
Viver Com Tesão — Finalmente
Tem dias em que tudo parece claro.
E tem dias em que a insegurança bate forte.
Ainda me pergunto se deveria ter voltado para o corporativo, para aquela zona de conforto que, apesar de sufocante, era previsível.
Ainda tem dias ruins, dias em que eu questiono minhas escolhas, meus caminhos, meu futuro.
Mas sempre que volto pra natureza, tudo muda.
Ela me silencia.
Ela corta o barulho.
Ela me lembra do que realmente importa — e da pessoa que eu estou tentando me tornar.
Não é que as dúvidas desapareçam.
Elas continuam ali.
Mas a trilha me mostra que eu consigo caminhar mesmo com elas.
E, ao mesmo tempo, cada mensagem de alguém que começou no trail por minha causa, cada pessoa que se reconhece na minha história… isso me puxa de volta pro eixo.
Me lembra que existe propósito no que estou construindo — mesmo quando eu não enxergo com tanta nitidez.
Hoje, depois de tudo que vivi, eu posso dizer uma coisa com honestidade:
eu estou feliz. Mas é uma felicidade real, imperfeita, humana.
Não é felicidade de Instagram.
Não é felicidade de foto bonita na montanha.
É uma felicidade que cabe dúvidas, desânimo, medo e, ainda assim… vontade de seguir.
Uma felicidade que nasce quando eu coloco o pé na terra, sinto o cheiro da mata, ouço meu próprio pensamento sem o ruído do mundo.
Essa jornada — do luto ao reencontro — não está concluída.
Ela continua. Todos os dias.
Eu tô só começando.
Se você está aqui, lendo isso, obrigado de verdade.
Tem muito projeto vindo, muita trilha pra viver, muita história ainda sendo escrita.
E eu espero que, de alguma forma, o que eu vivi também te ajude a reencontrar o seu caminho — no seu tempo, do seu jeito, com suas próprias respostas.
Philipp Hoffrichter
Publicado em 8 de dezembro, 2025
